A novela de todo início de mês
Todo início de mês, em milhares de empresas pelo Brasil, alguém senta na frente do computador para fazer um trabalho que odeia: entrar banco por banco, baixar extrato por extrato e mandar tudo para o contador.
O João era uma dessas pessoas. Ele tocava uma empresa de e-commerce em Camboriú, Santa Catarina, com contas em mais de um banco, como quase toda empresa de verdade. E o fechamento da contabilidade dependia sempre do mesmo ritual: senha, token, aplicativo. Achar o menu do extrato, escolher o período certo, torcer para o banco exportar o formato que o contador aceita. Baixar, conferir, anexar, enviar.
Quando dava tudo certo, ninguém nem percebia. Quando esquecia, o contador cobrava no dia 28, a guia do Simples ficava para a última hora e a culpa vinha inteira. De novo.
Um dia caiu a ficha: ele tinha virado gerente de extrato bancário da própria empresa. Um cargo que ninguém pediu, que não paga salário e que não exige talento nenhum. Só memória.
Trabalho de robô, feito por gente. Todo mês, para sempre. E o pior de tudo: não era só ele. É quase todo dono de CNPJ deste país.